sábado, 2 de junho de 2012

25/05, dia de cinema brasileiro – parte 2



A sessão seguinte à Xica da Silva era Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho. Cineasta reconhecido, Coutinho é descrito pelo site oficial do festival como “o mais importante documentarista brasileiro”. Cabra Marcado retoma não somente a história do Brasil, mas também uma peça importante da carreira do próprio cineasta.

O Cabra Marcado original

Em 1962, foi assassinado o líder camponês João Pedro Teixeira, na Paraíba. O Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE) decidiu produzir um filme que reencenava a história de vida de João Pedro, de suas lutas até seu assassinato.

A família do camponês, constituída por sua viúva, Elizabeth Teixeira, e seus dez filhos, interpretariam seus próprios papéis. Outros amigos de João Pedro e participantes da liga camponesa fundada por ele também participariam do filme. Utilizando muitas falas criadas pelos atores/personagens e suas próprias casas como locação, o filme apresentava altíssima qualidade em termos de execução técnica, principalmente na fotografia executada sobre o negativo em preto-e-branco. Os poucos fragmentos que sobraram são inseridos por Coutinho no documentário atual.

O golpe militar de 1964 interrompeu as filmagens. Os membros da equipe, bem como Elizabeth Teixeira e sua família, foram perseguidos. O que se salvou do filme foi a parte que já havia sido mandada para a revelação no laboratório.

Vinte anos depois.

Em 1984, com a abertura do regime militar, Coutinho decide retomar Cabra Marcado para Morrer. Dessa vez, contudo, o filme se transformaria em um documentário sobre como e porque as filmagens foram interrompidas, e o que aconteceu com a família Teixeira.

Coutinho volta às antigas locações e procura os participantes do filme, mostrando-lhes as antigas imagens de que participaram e lhes entrevistando sobre o que se lembram da realização do filme e sobre o que pensam em relação ao trabalho que realizaram.

Elizabeth Teixeira e sua família durante as filmagens de 1962-64.

Ao relembrar a história do movimento camponês, o documentário mostra a consciência política e de classe que esses trabalhadores possuem.  Também é reconstituída a história de João Pedro e sua família. Elizabeth Teixeira, que havia mudado seu nome e se escondido, se revela novamente a parentes e amigos. Dessa forma, além de recordar a perseguição política da década de 1960, Cabra Marcado também registra o afrouxamento do regime militar na década de 1980.

O cinema como arma.

Apesar de contar uma história de muito sofrimento e tristeza, o filme também arranca algumas risadas ao descrever a perseguição dos militares aos estudantes que realizavam o filme de 1962. Ao interrogarem os camponeses, havia uma pergunta freqüente: “como eram esses cubanos que estavam aqui?”.

Isso mesmo, um grupo de estudantes que fazia um filme foi confundido com cubanos que tentavam instaurar uma revolução no país. Perguntavam ainda como os “cubanos” falavam, se os camponeses eram capazes de entendê-los, e o mais importante: onde estavam as armas? No lugar onde se imaginava que mais de 20 mil armas estavam sendo escondidas, o exército encontrou apenas tripés, refletores, câmeras, rolos de filme, enfim, um equipamento básico de filmagem.

Pela inquietação e perseguição que as filmagens de Cabra Marcado para Morrer gerou em 1962-64, e por tudo o que a versão final de 1984 demonstrou, fica claro que o cinema pode sim, ser uma arma muito poderosa. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

25/05, dia de cinema brasileiro - parte 1

O Brasil foi o convidado de honra em Cannes este ano, sendo homenageado, entre outros eventos, por exibições de A Música Segundo Tom Jobim (2011), Xica da Silva (1976) e Cabra Marcado para Morrer (1984). Possuindo uma ligação especial com o festival desde a época do Cinema Novo (como o próprio site oficial explica), o Brasil também se viu representado pela participação de On the Road ,dirigido por Walter Salles, na mostra competitiva, e pela presença de Carlos “Cacá” Diegues como presidente do júri do prêmio Camera d’Or.

O problema das legendas.

Na mostra Cannes Cinéphiles, teatro La Licorne, seriam reprisados filmes da competição principal, bem como os filmes brasileiros homenageados. Dia 25 a programação seria: Xica da Silva, de Cacá Diegues, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, e finalmente a reprise de On the Road, De Walter Salles.

A primeira sessão encheu o espaço do teatro com um público formado principalmente por jovens e idosos. Depois de uma hora de fila, o início da sessão foi decepcionante: uma funcionária do festival fez um anúncio ao microfone que gerou vários murmúrios de reclamação. Como meu francês não é muito bom, só o que pude entender foi que havia algum problema com as legendas do filme. Iniciada a sessão, revelou-se o problema: as legendas, em francês, estavam atrasadas, o que atrapalhava a compreensão das falas para pelo menos 95% do público presente.  

O problema persistiu durante toda a projeção de Xica da Silva e se repetiu em Cabra Marcado para Morrer, sessão que contou com uma menor presença de público, mas um público que reclamou ainda mais alto quando o atraso nas legendas foi anunciado.

O que simplesmente não dá para entender é como um festival com proporções tão grandes, com uma organização tão bem planejada como o Festival de Cannes não conseguiu sincronizar uma legenda. Isso é simplesmente inconcebível. Falta de respeito não somente com o público, mas também com os realizadores dos filmes, que tiveram o entendimento de suas obras prejudicado, e com o Brasil, que como país convidado deveria ter suas obras tratadas com mais cuidado.

Xica da Silva: personagem histórica que virou mito.

Dirigido por Cacá Diegues e inspirado na história real de Francisca de Oliveira da Silva, o filme conta a história quase mítica da escrava que virou senhora durante o auge da mineração de diamantes no Brasil, no século XVIII.

Apesar do fundo histórico, Diegues não segue a história com fidelidade, nem prima pelo realismo. A Xica interpretada por Zezé Mota traz consigo um exagero e uma extravagância fora do comum. O contexto da execução do filme também influencia em seu enredo e sua estética. Em 1976 o Brasil passava pelo regime militar, e mesmo que não apresente uma carga política muito forte, Xica da Silva também fala sobre a exploração das autoridades sobre os mais fracos e sobre os sonhos de liberdade destes.

O filme começa com a chegada do novo contratador de diamantes enviado por Portugal, João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), ao Arraial do Tijuco, que futuramente seria conhecido como Diamantina. No caminho ele conhece Teodoro (Marcus Vinícius), homem que encontra os mais ricos veios de diamantes, os explora sem a autorização da coroa e depois vende as pedras aos holandeses. Por isso, ele é procurado como bandido pelas autoridades. João Fernandes, contudo, decide aproveitar-se do talento de Teodoro ao invés de prendê-lo.

Zezé Mota como Xica da Silva.

Xica da Silva (Zezé Mota) é escrava do Sargento-Mor (Rodolfo Arena) e amante dele e de seu filho, José (Stepan Narcessian). Quando fica sabendo da chegada do contratador, Xica decide que quer conhecê-lo e faz de tudo para que isto aconteça. Encantado por ela, João Fernandes a compra e a torna sua amante. Xica faz coisas que “só ela sabe”, e com isso coloca João Fernandes a seus pés.

Quando o contratador passa a tratar a escrava como senhora, convidando-a a sentar-se à mesa consigo, dando-lhe roupas caras de presente e fazendo todas as suas vontades, a sociedade à sua volta se escandaliza. No início, são as outras escravas da casa, obrigadas a servir a uma igual como superior, que se sentem ofendidas. Em seguida, após conseguir sua carta de alforria, Xica passa a conviver com a alta sociedade local, não perdendo uma oportunidade de provocá-los com sua recém-adquirida posição.

Relação entre poder e dinheiro.

O poder de Xica provém de João Fernandes, e o poder de João Fernandes provém de seu cargo político e, sobretudo, do dinheiro que possui. Apesar de escandalizados com a relação do contratador com a ex-escrava, nenhum dos membros da sociedade se atreve a dizer algo. Quando Xica pede que o amante lhe dê de presente o mar, ele encomenda que um barco seja construído para navegar na barragem do arraial. Reunindo todas as autoridades para a “inauguração” do barco, João Fernandes aplaude e acena para Xica. Todos, apesar de indignados, imitam seu gesto.

Encantado por Xica, João Fernandes a transforma em uma senhora. 

Quando a autoridade máxima e homem mais rico da região aplaude, todos aplaudem. Essa cena compreende uma diversidade de críticas que o diretor quer transmitir ao público, tanto em relação ao governo ditatorial da época da exibição do filme, quanto (e principalmente) à mentalidade do país, à supervalorização do dinheiro e ao conformismo.

A própria indignação das senhoras da elite e do pároco local com o comportamento de Xica é ocultada para não ofender o contratador. O racismo contra ela ainda é grande, e o incômodo que os brancos sentem em ver “essa negra safada” com status quase de rainha só é suplantado pela adulação à autoridade e a quem tem mais dinheiro.

A inconfidência mineira e o sonho de liberdade.

Em 1976 o regime militar já mostrava sinais de afrouxamento. Apesar disso, Diegues não omitiu críticas ao sistema de governo em Xica da Silva. Na história, o personagem mais politizado é José, o filho do Sargento-Mor. Além de ser o único que genuinamente torce pelo sucesso de Xica, é o único que questiona os propósitos do contratador.

José se refere aos portugueses como ladrões da riqueza nacional, e a João Fernandes como um enviado que “vem de Portugal para tomar o que não lhe pertence”. Decidido a lutar pela liberdade do país, o rapaz parte rumo à Vila Rica, onde pretende tomar parte em movimentos contestadores da dominação da coroa portuguesa, implicitamente, a inconfidência mineira.

Outro personagem que pode representar uma crítica aos militares é o próprio Sargento-Mor, ridicularizado desde a primeira cena em que aparece. Ele procura as calças, enquanto o senhor Intendete (Altair Lima) e sua esposa Hortência (Elke Maravilha) presenciam a cena, constrangidos. Desajeitado e visivelmente sem muita cultura, o Sargento-Mor é o exato contrário de seu filho.

Por fim, o sonho de liberdade de Xica. Mesmo após receber sua carta de alforria, ela ainda é presa ao dinheiro de João Fernandes, pois sem ele e sua riqueza ela não é nada. Mesmo rica e livre, ela não pode nem ao menos entrar na igreja por ser negra. Sua condição reflete a condição do país, que mesmo livre ainda é preso aos donos do dinheiro e aos detentores do poder.

A corrupção no Brasil Colônia.

O contratador é enviado por Portugal para investigar supostas irregularidades e roubos na exploração dos minérios de diamante. Ao invés de cumprir rigidamente sua tarefa, João Fernandes estabelece com o bandido Teodoro uma espécie de equilíbrio de poder. O contratador não persegue nem prende o bandido, mas o deixa livre para descobrir os veios mais ricos e explorá-los o quanto puder. Quando Teodoro, por sua limitação de recursos, extrai tudo o que pode e parte. João Fernandes então envia seus homens, melhor equipados, para continuar a extração até que a fonte se esgote. Assim, deixando de cumprir a lei, ele enriquece.

Quando Portugal envia um fiscal da corte, o Duque de Valadares (José Wilker), para fiscalizar o trabalho de João Fernandes, o Tijuco ganha uma nova autoridade a quem adular. Para escapar do degredo na África, o contratador paga o que pode ao Duque, que, por sua vez, também deixa de cumprir suas obrigações em nome do interesse próprio. A mensagem é clara: autoridade, no Brasil, só auxilia a si própria.

A estética de Debret em cena.

A mis-em-scène construída, em muitos momentos, gera a sensação de se estar assistindo a um quadro de Debret que se move e fala. Os vestidos das mulheres, as crianças nuas ou semi-nuas brincando pelo chão enquanto os senhores comem à mesa, os escravos sendo castigados com pesados grilhões de ferro. Tudo remete à obra do pintor francês.

A mis-en-scène do filme leva ao cinema a estética dos quadros de Debret. 
Em outros momentos, porém, o carnaval brasileiro parece se tornar a inspiração principal. As roupas e maquiagens de Xica e seus servos possuem muito dourado, muito brilho. Personagem símbolo do exagero, da extravagância e da luxúria, Xica também é uma personagem real que se tornou mito popular. Assim, retratá-la com um toque de fantasia carnavalesca é perfeitamente adequado, e a interpretação de Zezé Mota se alinha com essa estética.

Xica com seus "súditos", vestidos com muita cor e brilho.

Com Xica da Silva, Diegues utiliza o passado histórico do país para criticar sua contemporaneidade, na década de 1970. Reprisá-lo em 2012 ajuda a lembrar-nos de que nem todas as mudanças de que precisamos já foram realizadas. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

24/05, Noite de Première.


O que define o certo e o errado? Qual é a linha que separa uma pessoa normal, com seus defeitos e qualidades, de um babaca completo sem a menor consideração? Esses são alguns dos questionamentos que propõe o filme da diretora Catherine Corsini, Trois Monde (Três Mundos, em tradução livre), cuja estréia assisti na mostra Um Certo Olhar.

Um grupo de jovens adultos, bem vestidos, mas visivelmente embriagados, faz brincadeiras perigosas com seus carros em um estacionamento vazio. A inconseqüência de seus atos imediatamente instiga a aversão do público. Em seu apartamento, Juliette (Clotilde Hesme) conversa com o namorado, Frédéric (Laurent Capelluto). Ao aproximar-se da janela, ela testemunha um atropelamento: o carro dos três jovens, dirigido por Al (Raphaël Personnaz), se choca com um homem. Os responsáveis fogem e Juliette presta socorro.

Al trabalha em uma concessionária de carros e está noivo da filha de seu chefe, Marion (Adèle Haenel). Bem apessoado e dedicado, é um rapaz que trabalhou toda a sua vida para se tornar rico e importante. As negociações que faz com seus clientes não são muito esclarecidas, mas a forma como ele entrega os carros e recebe o pagamento dá a entender que são negócios escusos. Depois do atropelamento, sua autoconfiança é abalada. Ele se divide entre a culpa e a pressão por manter o estilo de vida que conquistou.

Os personagens Juliette (Clotilde Hesme) e Al (Raphaël Personnaz) em cena de Tois Monde.

A preocupação de Juliette com a vítima e com sua família, bem como sua indignação pela atitude do motorista que fugiu, faz com que ela se envolva em uma situação muito mais complexa e emocionalmente estressante do que ela poderia imaginar a princípio. A esposa da vítima, Vera (Arta Dobroshi), se apega à sua compaixão, e passa a demandar cada vez mais a sua presença. É quando Juliette reconhece Al, porém, que ela se torna definitivamente o ponto de intersecção entre vítima e culpado.

Inicia-se uma interconexão entre duas realidades completamente distintas, tendo Juliette como ponto em comum. De um lado, Al: francês, com dinheiro, buscando deixar sua mãe - uma faxineira aposentada - orgulhosa, mas trabalhando em negócios escusos. Do outro, Vera: imigrante ilegal, sem dinheiro, com sonhos de uma vida melhor e sofrendo pelo marido.

O filme apresenta o relacionamento desses três personagens chave, os três mundos do título, como um relacionamento real entre pessoas normais, cujas vidas se tornaram ligadas por uma tragédia. Os questionamentos morais são vários. Até que ponto Al é uma boa pessoa que cometeu um erro, e até que ponto é um babaca influenciável? Sua tentativa de “indenizar” a viúva de sua vítima, bem como a solidariedade de Juliette, são realmente atos de auto-expiação, ou se tratam de narcisismo? Trata-se de obter o perdão do próximo, ou o próprio perdão?

O roteiro é muito bem conduzido pela diretora, mas a carga dramática não deixa em aberto muitas opções para a conclusão. Trois Monde é um filme demasiado próximo da realidade das paixões e dos defeitos humanos, e é isso que o torna tão interessante. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

O que eu vi – e vivi – no 65° Festival de Cinema de Cannes.

Antes de começar a falar sobre os filmes, um pouquinho de experiência pessoal...


Chegando lá.

Eu não esperava ir a Cannes. Queria, e muito, mas não esperava que acontecesse tão cedo. Quando a minha amiga Malu Sá disse que era possível se inscrever, resolvi que valia mais do que a pena tentar. Como estou morando em Sevilla, Espanha, desde fevereiro, ir visitar a Riviera Francesa em maio não parecia um sonho assim muito impossível de se realizar. Olhei o regulamento no site, juntei os documentos e enviei, ainda assim sem muita esperança de que fosse dar certo. Quem não arrisca não petisca, esse é a grande verdade brasileira da vida.

A confirmação de que eu receberia uma credencial chegou, e com isso o que era apenas uma vaga esperança se transformou em muita empolgação e preparativos: passagens, hotel, roupas... A data escolhida foi de 24 a 27 de maio, os últimos quatro dias, já que por motivos de compromisso com a universidade seria impraticável participar das duas semanas inteiras de festival.

Sem saber exatamente o que conseguiria ver, mas disposta a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, parti. Com a companhia da Malu, sem a qual nada disso teria sido possível, cheguei a uma cidade pequena, mas que fica gigante aos olhos do mundo quando os holofotes do festival se acendem. A cidade fica cheia de cineastas, atores, jornalistas, fotógrafos, cinéfilos e turistas, famosos e anônimos.

De fila em fila.

Primeira etapa: credenciamento. Depois de perguntar a algumas pessoas, procurar aqui e ali, encontrei o local certo e peguei minha credencial. No horário que eu fui não tinha fila, ainda bem. O problema foi demorar a entender o funcionamento do festival, saber em quais projeções a prioridade era de quem tinha convite, e em quais a prioridade era de quem, como eu, tinha crachá. Isso foi algo que descobri ao longo dos dias.

Com ou sem prioridade, a primeira certeza do festival é: você vai enfrentar filas. Filas que, dependendo do teatro e do filme, são de mais de uma hora, no sol. A não ser que você seja alguém muito importante, é claro. E é preciso ter cuidado, porque as filas são largas e tem gente que vai se encostando e fura mesmo. Os teatros são grandes, e a visão da tela é boa praticamente de qualquer lugar, mas ainda assim não é legal ver alguém querendo dar uma de malandro e passando na sua frente.

O Festival tem muitas mostras, exibidas em diferentes salas. Há a competição oficial, a seleção fora de competição, a mostra um certo olhar, a competição de curtas-metragem... o que nos leva à segunda certeza do festival: não se pode ver tudo. Ter um bom conhecimento da programação e habilidade seletiva é essencial.

Uma pessoa que me ajudou a entender um pouco do complexo funcionamento de um festival tão grande foi o Paulo, o segurança português que conheci graças ao meu sobrenome brasileiríssimo escrito em letras garrafais no crachá. Encontrar pessoas de diversos lugares e conversar, estabelecer contatos, esse era um dos meus objetivos em Cannes. Paulo foi apenas o primeiro de alguns felizes encontros casuais. Não posso dizer que conheci alguém muito importante, algum figurão de Hollywood, mas conheci pessoas como eu: que amam cinema e que de alguma forma vivem dele. Pessoas normais, simpáticas, sonhadoras, de bom papo.

Na hora de conversar vale tudo: inglês, espanhol, um francês bem básico pronunciado com a maior incerteza do planeta, mímica... e volta e meia português. “Sou brasileira” é uma frase que tem um efeito quase mágico nas pessoas, quase um Abracadabra que abre caminho para um sorrisão e muita simpatia. E é nessa hora que muita gente quer mostrar que sabe um pouco de português, seja com um “obrigado” ou um “bom dia”, seja cantarolando “ai se eu te pego”, que (ainda) é sensação por aqui.


 :D

A magia do Festival.

Cannes atrai muita gente. Há quem vá apenas para fazer turismo, “pegar” uma praia e tentar ver os artistas famosos desfilarem pelo tapete vermelho. Há que vá vender seus filmes, fazer negócios. A maioria, contudo, vai ao cinema. É interessante pensar o que leva alguém a se deslocar a uma cidade, muitas vezes vindo de outro país, simplesmente para assistir a filmes. Sim, são estréias de filmes, muitos deles premiados pelo próprio festival ou futuramente premiados em festivais subseqüentes, mas são filmes que serão lançados nos cinemas, ou pelo menos a maioria será. Então, de onde surge essa necessidade de ver primeiro? Ou melhor, de ver primeiro em Cannes?

Cannes tem um glamour e um charme aos quais pouquíssimas outras celebrações do cinema se igualam. Cannes tem o charme da praia, do mar mediterrâneo, das celebridades de diversos países, do idioma francês. Mais que isso, o festival tem um dos mais rigorosos processos de seleção do mundo. Então, se um filme está em Cannes, merece ser visto.

Sem contar a variedade de nacionalidades representadas na telona do festival, principalmente na mostra competitiva de curtas-metragem. Em Cannes se fala francês, inglês, alemão, árabe, português... e fala-se de França, de Estados Unidos, de Palestina, de imigrantes, de exploração, de inocência, de loucura, de amor. O mundo se vê representado e se representa na telona.

Depois de praticamente quatro meses sem ir ao cinema, sair de uma sessão e já entrar na seguinte foi como resgatar minha própria alma de volta. Exagero poético com um toque de clichê? Não mesmo. O que me moveu à Cannes é o mesmo que move muita gente: a vontade de conhecer as novidades, o que os principais artistas têm produzido, o que se têm vivido e sobre o que se têm falado no mundo, mas, acima de tudo, o que me moveu à Cannes é o amor pela sétima arte. E ela soube me recompensar apropriadamente. 


domingo, 27 de maio de 2012

Noite de premiação em Cannes.

Cannes, Palais du Festival. Em uma cerimônia que durou um pouco mais de uma hora, foram entregues os principais prêmios da 65ª edição do festival. A chuva não tirou o brilho dos artistas que caminharam pelo tapete vermelho, nem diminuiu o ânimo e a determinação dos fãs que esperavam para vê-los.

A cerimônia foi conduzida por Bérénice Bejo, atriz que esteve em Cannes ano passado apresentando o filme O Artista. Simples e direta, sem as firulas que estamos acostumados a ver na entrega dos Oscars, por exemplo, a noite em Cannes foi de pura celebração do cinema, e da beleza que este traz ao mundo. 

Entre os chamados ao palco para entregar os premios, esteve o brasileiro Cacá Diegues, encarregado de conceder o Cámera D'Or. Em seu pequeno discurso antes de entregar o prêmio de melhor atuação feminina, o ator Alec Baldwin fez piada sobre a sua "noite difícil", tendo que ir a Cannes, vestir um smoking, caminhar pelo tapete vermelho. Audrey Tautou, ao lado de Adrian Brody, lembrou o quanto o festival representa na sua vida e carreira. A essa dupla coube entregar a honraria máxima da noite, a Palma de Ouro.

E o vencedor foi Amour, de Michael Haneke. O filme conta a hostória de um casal de professores de música aposentados, já com seus oitenta e tantos anos, George (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), que começa a enfrentar os desafios da velhice quando Anne sofre um derrame. Com esta, Haneke soma duas Palmas de Ouro, tendo conquistado a primeira em 2009, por A Fita Branca.


Os premiados da noite.

Palma de Ouro: Amour, Michael Haneke.

Grande Prêmio do Júri: Matteo Garrone, Reality

Atuação Feminina: Cosmina Stratan e Cristina Flutur, Beyond the Hills

Atuação Masculina: Mads Mikkelsen, The Hunt

Melhor Diretor: Carlos Reygadas, Post Tenebras Lux

Melhor Roteiro: Cristian Mungiu, Beyond the Hills

Prêmio do Júri: The Angel's Share, Ken Loach

Camera d'Or: Beasts of the Southern Wild, Benh Zeitlin

Melhor Curta-Metragem: Silence, Seissiz Be-Deng

terça-feira, 15 de maio de 2012

Começa amanhã o 65° Festival de Cinema de Cannes

Quarta-feira, 16 de maio será o marco inicial de mais uma edição de um dos principais eventos do universo cinematográfico. O Festival de Cannes completa 65 anos de muito glamour e de uma influência no cinema equiparável, talvez, somente ao Oscar. 

Conhecido por seus altos critérios de seleção, o festival apresenta diversas mostras: a competição oficial, cujo premio máximo é a Palma de Ouro; Um certo Olhar, que exibe filmes experimentais; Cinefoundation, que apresenta filmes de estudantes de cinema, além de exibições especiais, dos filmes fora de competição e da competição de curtas-metragem. São 12 dias de puro cinema.

Homenageando uma eterna diva.

Marilyn Monroe foi a atriz escolhida para ser o rosto de Cannes este ano, em especial uma imagem sua soprando um vela sobre um bolo de aniversário. O aniversário deste ano para Marilyn, porém, é trágico. Enquanto Cannes celebra 65 anos de nascimento, miss Monroe completa 50 de falecimento. 

                                                


A eterna queridinha da América, contudo, nunca foi ao festival. A Malvada (All About Eve), do qual fazia parte em um papel menor, foi o único de seus filmes apresentados em Cannnes. Ainda assim, o arquivo online do festival a omite dos créditos. 

A semiótica de Marilyn em Cannes é mais complicada e interessante do que qualquer press release implica, como bem explica o artigo de Peter Bradshaw na edição online do jornal The Guardian.

Que a imagem é charmosa e elegante, contudo, não há como negar. 

Os Brasileiros em cannes.

Walter Salles concorre na seleção oficial com On the Road, com Kristen Stewart, Amy Adams, Viggo Mortensen e Kirsten Dunst no elenco. Enquanto isso, Carlos Diegues preside o juri do Caméra d'Or, premio concedido ao melhor filme de estréia de um diretor em Cannes.

Outra brasileira em Cannes? Eu! Somente a partir do dia 24, porém. Difícil saber o que vou assistir, o que vou encontrar, mas o que vier virá e será relatado aqui, é claro.



segunda-feira, 30 de abril de 2012

Adaptación



El ladrón de Orquídeas

Charlie Kaufman (Nicolas Cage) es un talentoso guionista a quien comisionan la adaptación de un libro sobre un hombre que roba orquídeas raras de áreas de preservación ecológica para reproducirlas y venderlas. Sin saber qué hacer con una historia sin conflictos o acción, Charlie tiene que luchar contra su falta de inspiración y sus dificultades en se relacionar con las personas a su alrededor que le pueden ayudar.

Charlie lucha para escribir un guión sobre un libro que no le trae inspiración.

 Escribido por la periodista Susan Orleans (Maryl Streep), El ladrón de Orquídeas habla de su convivencia con John Laroche (Chriss Cooper), el dicho ladrón,  mientras ella investiga el caso del robo de las flores. En el principio, Susan se asusta con el sujeto, juzgándolo un tanto loco, pero al final se encanta con él y con su modo de hablar de la evolución de los seres y de la superación de las dificultades de la vida.

Es fácil entender el encanto de Susan por John. El es un tipo raro, pero carismático, con una sabiduría sencilla y una manera única de ver al mundo. Es el personaje perfecto para un libro o filme, solo esperando que lo descubran. Charlie, sin embargo, no encuentra en el personaje la misma inspiración que encuentra Susan.

Charlie afirma muchas veces que quiere escribir una película sin distorsionar a la historia original, enseñando la belleza de las flores y la filosofía de vida de John Laroche. Ese objetivo, sin embargo, se convierte en algo mucho más difícil do Charlie imagina. Así, buscando generar un conflicto y aumentar el interés del guión, el decide incluir a el mismo y a su hermano gemelo, Donald (Nicolas Cage), en la historia.

Dos hermanos, dos visiones del proceso creativo.

 Charlie y Donald tienen personalidades completamente distintas, aunque poseen la misma apariencia y, como el proprio Charlie destaca: “el mismo ADN”.  Charlie es tímido, tiene dificultades en se comunicar con las personas y frecuentemente disminuye su ya baja autoestima diciendo a si mismo cosas negativas. Donald es más expansivo, es alguien que tiene bon humor y que a los demás les agrada tener cerca.

Charlie discute con Donald, los dos hermanos interpretados por Nicolas Cage.

Cuando Donald decide se tornar un guionista también, Charlie no recibe bien la noticia. Se pode ver que él se siente  invadido en su espacio, tiendo su hermano viviendo en su casa y ahora intentando hacer su trabajo. Donald empieza su nuevo proyecto con energía, pareciendo no percibir o cuanto esto incomoda a Charlie, que no acredita en su capacidad y responde con sarcasmo a las ideas que el otro le presenta.

Donald busca ayuda en las conferencias de Robert Mckee (Brian Cox), un experto en guión de Hollywood. Así, Donald empieza a escribir una historia con todos los clichés que Charlie intenta evitar en la suya. Así, en la película, Donald representa el cine industrial de Hollywood, con sus persecuciones de coche, explosiones y clichés. Al mismo tiempo,  Charlie representa el artista que busca una idea original y significativa.

En el final, cuando Charlie percibe que no tiene solución para su guión, él pide a Donald por ayuda, y la soma de los talentos de cada uno termina por encontrar una respuesta

La busca por la orquídea Fantasma

John Laroche busca una orquídea rara, llamada Fantasma porque a pocos les toca verla. Encantada por la dicha belleza de la flor, Susan empieza su propia jornada de busca por ella. Para la periodista, la Fantasma es más que una flor, es la respuesta para los cuestionamientos de la vida.

Susan Orleans (Maryl Streep) se encanta por las flores

La busca por la flor representa la busca por una respuesta, por un ideal. Se puede decir que Charlie también busca verla. Su orquídea Fantasma es é guión que él se esfuerza en escribir, pero que se fuga de sus manos.


Cuando descubre el real propósito que Laroche tiene para la flor: hacer una droga, Susan en principio se queda asustada y lo rechaza, pero después lo acepta. Así, la paz y la tranquilidad de encontrar la flor como sentido de la vida es sustituida por la alienación y el entumecimiento que la droga le proporciona.

Cuando descubre el secreto de Susan, que utiliza de la droga de la flor juntamente con Laroche, Charlie ve toda la belleza de las palabras del libro se desaceren delante de sus ojos. Así, él no se siente más obligado a pasar esa belleza, ahora descubierta como artificial, a su guión. 


El real inspira la ficción

Susan Orleans, John Laroche y Charlie Kaufman son personas reales cuyas historias de vida contribuyeran para la construcción del guión de Ladrón de Orquídeas. La escritora, su personaje y el libro existen. El libro aparece en la película, y extractos de ello son narrados en voice over por Maryl Streep. Charlie Kaufman, famoso por el guion de Cómo ser John Malkovich, escribe una historia paralela de si mismo intentando adaptar el libro de Susan.

La metalenguaje en la película ocurre cuando el real Charlie Kaufman escribe sobre si mismo y cuando el Charlie Kaufman de la ficción habla de si mismo escribiendo el guión y poniéndose como personaje.
Dos líneas narrativas se presentan en la película: la narración de Charlie, que describe como son escritas las escenas del guión, y la narración de Susan, que describe partes de su libro. Las dos voces de estos dos escritores construyen juntas la historia de la película. La voz de Susan es la dulce voz de alguien que ha encontrado en su personaje y en las flores una lección de vida. Charlie, por su vez,  es la voz del caos, de la inseguridad y de la desilusión.

Aunque esté basado en una historia real,  El ladrón de Orquídeas tiene mucho de ficción, principalmente en el final. Después de su busca por escribir un guión sin los clichés de Hollywood, Charlie se encuentra en una situación de acción y peligro igual aquellas a que evita escribir. Al final de la película, no se sabe si las escenas de acción fueran incluidas porque ocurrieran, o porque Charlie cedió a la forma de narrativa de Hollywood.


Ficha Técnica

Film: El ladrón de Orquídeas (Adaptation) – 2002
País: Estados Unidos
Género: Comedia dramática
Dirección: Spike Jonze
Guión: Charlie Kaufman