domingo, 2 de março de 2014

Aquecimento pré-Oscar - Capitão Phillips (Captain Phillips)


Categorias em que concorre: Melhor Filme, Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Edição, Edição de Som, Mixagem de Som.

Baseado em uma história real, Capitão Phillips (Captain Phillips) narra a abordagem de um navio cargueiro americano por um grupo de piratas somalis.

A primeira hora do longa lembra A raposa do mar (The Enemy Below), filme de 1957, que narra a perseguição de um navio americano a um submarino alemão durante a Segunda Guerra  Mundial. O jogo de caça e fuga entre os dois se transforma rapidamente em um jogo de xadrez náutico em que o capitão do navio americano e capitão do submarino alemão realizam movimentos estratégicos de perseguição e evasão cada vez mais complexos, um ganhando o respeito do outro por sua inteligência tática.

Em Capitão Phillips, enquanto os piratas somalis tentam se aproximar do cargueiro americano, ambos os capitães iniciam manobras de perseguição e evasão. Ao abordar o navio, o capitão somali, Muse (Barkhad Abdi), se depara com a astúcia do capitão americano, o Phillips do título (Tom Hanks). A esperança de que se desenrole um jogo de inteligência à semelhança de A raposa do mar logo morre. Afinal, trata-se de um filme em que o bom e o mal são claramente delineados e personificados. É de Tom Hanks como herói do filme que estamos falando; de um grupo de civis desarmados atacado por um grupo de bandidos munidos de fuzis. Apesar disso, existe a relação de respeito entre os dois capitães, Muse e Phillips. Respeito entre dois homens no comando, responsáveis por seu barco e seus homens, qualquer que seja a embarcação e a finalidade.

O “lado” dos somalis não é negligenciado. Na abertura do filme conhecemos o que os move à pirataria: senhores de guerra intimidam os homens de um pequeno vilarejo à beira-mar, demandando o dinheiro dos navios que passam pela costa do país. Preocupados e tensos, eles partem ao oceano armados e mascando Khat, uma planta que produz efeitos estimulantes semelhantes à anfetamina. Em tal estado de nervos e desespero, eles muitas vezes não tomam decisões sensatas.

Barkhad Abdi em cena de Capitão Phillips

A supremacia tecnológica e militar dos Estados Unidos fica em evidência. A direção firme de Paul Greengrass, contudo, consegue retratar os piratas somalis mais do que como simples bandidos, mas sem cair no simplismo de colocá-los como coitados obrigados a roubar. A hesitação do capitão Muse, muito bem interpretado pelo candidato ao Oscar Barkhad Abdi, demonstra que ele não gosta de fazer o que faz, apesar de tentar se mostrar duro e inabalável perante seus subordinados.

A edição de vídeo e o trabalho com o som conduzem o suspense e mantém a tensão no filme de forma competente. Apesar de suas mais de duas horas de duração, o filme não se mostra excessivamente longo ou cansativo, pelo contrário, é tenso e emocionante na medida certa.

Categorias em que tem mais chance: nenhuma qualidade de Capitão Phillips parece ser suficiente para fazê-lo se destacar nas categorias em que concorre. A atuação de Barkhad Abdi, apesar de boa, tem concorrentes muito fortes, como Jonah Hill, em O Lobo de Wall Street, e Jared Leto, em Clube de Compras Dallas, somente para citar alguns. A chance de que o filme saia do Dolby Theatre sem prêmios hoje a noite é muito alta. 

sábado, 1 de março de 2014

Aquecimento pré-oscar: Blue Jasmine


Categorias em que concorre: Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Original.

Woody Allen assume um tom dramático ao narrar a história de uma socialite nova-iorquina em decadência financeira e psicológica.

A milionária Jasmine (Cate Blanchett) perde tudo quando seu marido, Hal (Alec Baldwin), é preso por fraude pelo FBI. Tendo seus bens ou confiscados pelo governo, ou leiloados para cobrir dívidas, ela viaja à casa de sua irmã, Ginger (Sally Hawkins), em São Francisco, em busca de um recomeço.

O enredo se desenvolve a partir da alternância de cenas que retratam o passado de Jasmine em Nova Iorque e seu presente em São Francisco. Aos poucos, sua personalidade é destrinchada perante o espectador em cenas que provocam uma alternância de sentimentos entre pena e desprezo, empatia e aversão. A interpretação dedicada e visceral de Cate Blanchett traz à personagem uma dimensão humana que a faz real, mesmo quando esdrúxula. Como todo o ser humano, ela tem momentos de sensatez e de pura ilusão. Ao mesmo tempo em que tenta se reerguer e é puxada para baixo pelas dificuldades da vida, ela mesma se sabota, não abrindo mão de seus delírios de grandeza e sua compulsão por mentir. Ao final, Jasmine é mais do que a típica personagem neurótica de Woody Allen: é uma mulher doente, transtornada psicologicamente e carente de cuidados.

O contraste estabelecido entre o estilo de vida das duas irmãs chega a ser caricato. A mensagem de que simplicidade e honestidade, riqueza e mentiras são dois pares inseparáveis, ao invés de edificante, traz um chato ar de moralismo. Woody Allen acerta ao mostrar que o ser humano é complexo e multifacetado, mas  erra ao refazer o ciclo e reforçar os estereótipos do rico mesquinho, mentiroso e egoísta, e do pobre honesto, ingênuo e puro. Com o desenvolvimento do enredo, porém, é difícil conceber uma conclusão diferente.  


Cate Blanchett em Blue Jasmine

Categorias em que tem mais chance: Cate Blanchett é uma das atrizes mais cotadas ao Oscar desse ano, já tendo vencido diversos prêmios importantes pelo papel de Jasmine, entre eles o Globo de Ouro e o BAFTA.

Apesar de ser sempre um forte candidato ao prêmio de melhor roteiro original, o trabalho de Woody Allen esse ano está sendo ofuscado pelas indicações de American Hustle, Clube de Compras Dallas e Her

Aquecimento pré-Oscar – Gravidade (Gravity)


Categorias em que concorre: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Efeitos Especiais, Fotografia, Edição, Trilha Sonora Original, Design de Produção, Mixagem de Som e Edição de Som.

Com incríveis efeitos especiais aliados a uma trilha sonora e a uma montagem bem ritmadas, Alfonso Cuarón cria um thriller dramático de tirar o fôlego.

Em sua primeira missão espacial, a engenheira médica Ryan Stone (Sandra Bullock) está nervosa. Enquanto tenta instalar um aparelho a um satélite, ela luta contra os efeitos da gravidade zero, especialmente a náusea. Próximo a ela, o astronauta veterano Matt Kowalski (George Clooney) faz sua última caminhada espacial antes de se aposentar, conversando alegremente com o comando da NASA e seus companheiros de equipe. De repente, uma emergência acontece. A equipe de Kowalski recebe a notícia de que os Russos explodiram um de seus satélites e que com isso pedaços de satélite estão soltos em órbita, voando a uma velocidade incrível e acertando tudo em seu caminho. Dessa forma começa a luta dos astronautas para se protegerem e sobreviverem.

O filme se desenvolve por meio do paradoxo entre a incrível beleza do espaço – especialmente do planeta terra visto do espaço – e a agonia e o medo de uma luta pela sobrevivência em que cada segundo importa, mas que, ao mesmo tempo, pode passar por momentos de calma e desaceleração.

Ao lado dos efeitos especiais incríveis, a trilha sonora e a mixagem de som criam o clima de suspense envolvente que faz, literalmente, com que o espectador pare de respirar por alguns segundos. As alternâncias entre música, efeitos sonoros e silêncios dão ao filme um ritmo perfeito.

Sandra Bullock e George Clooney em Gravidade.

Categorias em que tem mais chance: melhor filme, melhor diretor, efeitos especiais, edição, mixagem de som e edição de som. Apesar da torcida do público mundial para que 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave) conquiste o Oscar de melhor filme, a imprensa internacional já revelou que as intenções de voto de vários membros da Academia se direciona a outros interesses. A Academia foge de temas fortes e traumáticos da história dos Estados Unidos, entre eles a escravidão. Enquanto isso, Gravidade é um filme que promove a superação e a força do espírito humano diante de adversidades, além de ser visualmente arrebatador e contar com uma edição e mixagem de som impecáveis, qualidades estas que fazem o “estilo” da Academia e costumam atrair muitos votos. 

Aquecimento pré-Oscar - Clube de compras Dallas (Dallas Buyers Club)


Categorias em que concorre: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original, Edição de Filme, Cabelo e Maquiagem.

Inspirado na história real de Ron Woodroof, um eletricista texano diagnosticado com AIDS em 1986, Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club) apresenta como pontos altos as excelentes atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto.

O início do filme não deixa dúvidas sobre quem é Ron Woodroof (Matthew McConaughey). Ele é visto consumindo drogas, álcool em excesso e fazendo sexo com o máximo de mulheres possíveis. Além disso, ele é evidentemente homofóbico, o que, não se pode esquecer, era atitude comum por parte de heterossexuais em 1985, época em que o filme é ambientado. Após um acidente de trabalho em que leva um choque, Ron vai parar no hospital onde é diagnosticado com HIV positivo e lhe é dada uma previsão de 30 dias para viver.

Para orientar o espectador e não deixar dúvidas quanto ao estado mental e de espírito do personagem, o filme passa a ser interrompido com cartelas com a contagem dos dias: dia 1, dia 7, dia 28. A princípio, Ron passa por estágios de negação e abatimento. Quando esses sentimentos passam, ele decide que irá buscar um jeito de viver.

Matthew McConaughery como Ron Woodroof

A princípio por egoísmo, Ron busca todo o tipo de medicamentos que ele acredita que prolongarão sua vida, mas que não são comercializáveis nos EUA por não serem regulamentados pela FDA, a agência americana de regulação de comidas e medicamentos.  Enquanto isso, uma nova droga é testada, a AZT. Apesar dos altos investimentos no medicamento, Ron percebe que ele produz efeitos positivos em poucos pacientes, e efeitos negativos em longo prazo. Com o auxílio de um médico mexicano que gerencia um hospital clandestino, Ron descobre medicamentos mais eficazes que, ao invés de tentarem eliminar o vírus, tratam os sintomas da doença, melhorando efetivamente a qualidade de vida e a longevidade dos pacientes.

A identidade de Ron muda ao passar do tempo. De machão egoísta, ele se torna quase generoso, e advoga pela causa daqueles que precisam de tratamento contra doenças terminais e se vêem com opções de medicamentos limitadas pelas regulamentações da FDA, que muitas vezes apenas servem ao interesse de grandes corporações.

AIDS e o preconceito na década de 1980

A primeira reação de Ron ao saber que tem AIDS é a indignação, a princípio, não por estar contaminado, mas por estar, em suas palavras, “sendo chamado de bicha”. Na década de 1980 a AIDS ainda era uma doença pouco conhecida, pouco estudada, e descrita na literatura médica como ocorrente principalmente em grupos homossexuais. Essa descrição contribuiu com o preconceito de que só tinha HIV quem era homossexual.

Em uma de suas idas ao hospital, Ron conhece Rayon (Jared Leto), um travesti com AIDS que participa do grupo de testes do AZT. Rayon ajuda Ron a vender seus medicamentos contrabandeados à clientela homossexual.   A amizade dos dois, bem como o crescente contato de Ron com homossexuais mina seu preconceito.

Jared Leto como Rayon

Apesar da montagem e cinematografia interessantes, o que chama a atenção em Clube de Compras Dallas são as atuações de McConaughery e Leto, nomeados respectivamente nas categorias de Melhor Ator e Ator Coadjuvante. Ambos extremamente magros, eles demonstram uma entrega tão intensa a seus personagens que são suficientes para que o filme seja atrativo e até mesmo comovente.

Categorias em que tem mais chance: é possível apostar em Clube de Compras Dallas como vencedor nas categorias de melhor ator coadjuvante e cabelo e maquiagem, mas não muito mais. O prêmio de melhor ator também é muito possível para McConaughery.

Aquecimento Pré-Oscar 2014

A cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, os famosos Oscars, acontecerá amanhã, dia 02 de Março, a partir das 16h (horário de Los Angeles). Esse ano,  graças à Amazon Instant Video (propaganda gratuita, de nada) consegui assistir a alguns dos filmes indicados. Por isso, começa hoje meu pequeno aquecimento pré-Oscar,  com críticas de filmes e minhas tentativas de adivinhar alguns dos vencedores. Não sou uma especialista em Oscar, mas com certeza será divertido ver o que consigo acertar ou não. Me acompanhem. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O que revela a casa de tolerância


ATENÇÃO: esse texto pode conter spoilers. Leia por sua própria conta e risco.
L’Apollonide – os amores da casa de tolerância (L´Apollonide – Souvenirs de la maison close) (2011), do diretor francês Bertrand Bonello, retrata o cotidiano de um bordel parisiense em 1900. A atmosfera claustrofóbica, a rotina repetitiva e a falta de perspectiva das prostitutas, envolvem e causam angústia no espectador. 
A prostituição como negócio legalizado e respeitado
Apollonide é uma casa de tolerância famosa e respeitada, que atraí a clientes ricos e influentes.  A Madame (Noemie Lvovsky) é a dona da casa, responsável por manter a ordem, controlar as finanças, gerenciar as garotas e garantir que seus clientes sejam sempre bem atendidos. Ela, contudo, também garante que as moças estejam sempre em dívida com ela, tornando impossível a saída delas da casa e a perspectiva de uma mudança de vida.
É com a chegada da novata Pauline (Iliana Zabeth), uma jovem de apenas dezesseis anos, que conhecemos as regras do negócio. As moças devem estar sempre limpas e perfumadas, a Madame fornece o sabão, mas não os perfumes. As moças também só podem sair da casa acompanhadas por um homem ou pela Madame, caso contrário, serão acusadas de solicitação, o que, ao contrário da casa de tolerância, não é legalizado.
É interessante notar que Pauline primeiro escreve à Madame pedindo seu ingresso na casa, destacando suas qualidades e elogiando a respeitabilidade do negócio. Quando chega, a garota afirma que traz consigo uma carta de seus pais, que a autorizam a trabalhar no local.


As mulheres como mercadoria
O negócio gerenciado pela Madame pode ser visto como respeitável, mas as garotas que nele trabalham não são elevadas ao mesmo nível de respeito. Ainda que um ou outro cliente se mostre mais romântico, traga presentes e até mesmo fale em casamento, na prática elas são um corpo à venda, um meio de realizar as fantasias e os fetiches mais estranhos, sujeitas ao risco de doenças e a gravidezes indesejadas.
Quando a jovem Pauline justifica sua vontade de ser admitida à Apollonide como um desejo de liberdade, a Madame ri, dizendo-lhe que a casa de tolerância é o oposto da liberdade. De fato, com as regras impostas as garotas, às dividas e as exigências dos clientes, a liberdade realmente lhes falta. A angustiante cena do exame médico, realizado sobre a mesa do refeitório, com todas as garotas presentes na sala, esperando lado a lado em camisolas brancas e meias pretas iguais, assistindo umas às outras, lembra uma inspeção de controle de qualidade de uma fábrica, em que a saúde e o bem-estar das moças não é tão importante quanto a garantia de que estão em boas condições para serem oferecidas aos clientes.
Quando um cliente menciona um estudo, realizado por uma mulher, que afirma que a circunferência da cabeça das prostitutas, assim como a dos criminosos, é menor do que as das demais pessoas, a objetificação das moças beira à sua criminalização e a sua redução a seres, como o estudo afirma, “com cérebros menores e intelectualidade comprometida”. “A prostituta é a versão feminina do criminoso”.
Essa objetificação contrasta com a humanidade e a sensibilidade dignificante que o diretor busca nessas mulheres, mostrando as brincadeiras entre elas durante as refeições, o tédio languido da espera por clientes, a confiança nas juras de amor de alguns, a felicidade jovial e quase infantil no contato com a natureza durante um piquenique ao ar livre em um raro momento de folga.


A mulher que ri

O rosto de Madeleine (Alice Barnole) é o primeiro que vemos em cena. Ela conta a um cliente regular um sonho que teve com ele. Em seguida, o cliente pergunta se pode amarrá-la e ela consente, já que uma das regras da casa é que as mulheres se adaptem para satisfazer às vontades dos homens. O rapaz, então, a ataca com uma faca, cortando suas bochechas ao lado dos lábios e criando nela uma cicatriz que desfigura seu rosto, dando-lhe um permanente sorriso vermelho e tenebroso.

Apesar de traumatizada com o episódio, Madeleine continua a trabalhar na casa, ajudando em tarefas como a lavagem de roupas e a preparação de comida. À noite, porém, seu corpo continua à venda, mas não como o das outras garotas. Com o novo apelido de “a mulher que ri”, Madeleine agora é vendida como uma curiosidade, como uma atração de um circo de aberrações. Ao encontrar problemas financeiros, a Madame oferece Madeleine a um grupo de ricos excêntricos que realiza festas servidas por mulheres nuas. Exibida como a curiosidade que é, a mulher que ri é acariciada, apalpada, inspecionada, enquanto permanece sentada com a expressão impassível em uma cadeira. A transformação de uma vítima de um ataque violento e cruel em uma fonte de renda alternativa é o símbolo máximo da vulnerabilidade de todas as mulheres da casa. As moças, e em até certo grau a Madame, todas tem compaixão por Madeleine, pois, além de gostarem dela como amiga, todas sabem que poderiam ter sido elas as vítimas.

É no final do filme que Madeleine reencontra um pouco de sua dignidade. Aproveitando um baile de máscaras, ela pode novamente estar no mesmo ambiente que os clientes, e volta a ser escolhida por um deles, dessa vez simplesmente por ser uma mulher, e não mais por ser considerada uma aberração curiosa.

A edição e a trilha sonora

Contrastando com a ambientação e a retratação fiel e verossímil de uma época específica: a virada do século IX para o século XX, temos a edição nem sempre linear, muitas vezes apresentando telas divididas e repetindo cenas, e a trilha sonora com músicas modernas. A mistura de lembranças e sonhos com o presente gera uma narrativa que oscila entre a introspecção das personagens, em especial Madeleine, e a rotina sufocante do bordel.

Torna-se impossível não compartilhar da sensação de claustrofobia e impotência daquelas mulheres. L’Apollonide é um filme que retrata com inteligência uma fatia de interação social, sem julgá-la explicitamente, limitando-se a expor uma história ao juízo do espectador, sem deixar de lembrar, ao final, que a profissão mais antiga do mundo – e suas conseqüências, para o bem ou para o bem ou para o mal – ainda é a realidade de muitas mulheres.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Blaze – or Love in Time of Supervillains (Livro)



ATENÇÃO: esse texto pode conter spoilers. Leia por sua própria conta e risco.

Escrito pela americana Laurie Boyle Crompton, Blaze – or Love in Time of Supervillains é um livro sobre crescimento pessoal e descobertas adolescentes, recheado de referências à histórias em quadrinhos e seus personagens.

Blaze tem dezessete anos, vive com a mãe e o irmão, Josh, de treze anos. Josh é a estrela de seu time de futebol e Blaze é a responsável por levá-lo, juntamente com mais três amigos do time, a todos os jogos do campeonato em sua minivan. O pai de Blaze deixou a família poucos anos antes para se mudar para Nova Iorque e perseguir seu sonho de ser ator, fazendo com que a mãe de Blaze precise trabalhar horas extras e com que a própria Blaze assuma responsabilidades paternas, que além de ser a motorista do seu irmão incluem fazer o jantar e organizar a casa. Estranhamente, apesar de se cansar dessa rotina e querer “ter uma vida” para poder sair com os amigos, Blaze não culpa seu pai pela carga extra de responsabilidades, mas sua mãe. O pai continua um herói aos olhos dela, especialmente por ser fã de histórias em quadrinhos – como ela – e ter deixado no porão de casa uma coleção gigantesca de revistinhas, que remontam até a década de 1960.

Blaze também gosta de desenhar quadrinhos e freqüentemente trabalha em sua criação, a super-heroína Blazing Goddess, que é um alterego da própria Blaze. Como toda a adolescente, ela tem uma queda por um garoto bonito da escola, no caso, Mark, que também é o técnico do time de futebol do irmão. Quando Mark finalmente percebe Blaze ao lado do campo durante uma partida do time, ela se sente nas nuvens por finalmente ter a perspectiva de realizar seus sonhos românticos com ele.

Uma garota muito tonta, ou apenas uma adolescente normal?

Para os leitores mais velhos, Blaze pode parecer uma garota extremamente tonta. Ela se apaixona bobamente por um garoto que está claramente a usando, faz sexo sem estar tomando pílula anticoncepcional e sem usar preservativo, confiando apenas que o rapaz “vai tirar a tempo” - o que não elimina a gravidade da falta de preservativo, já que o risco de uma gravidez ainda é alto, e o risco de uma DST é imenso. Ela não enxerga a falta de caráter de seu pai, que não apenas se separou de sua esposa, mas também abandonou a família completamente, nunca mais visitando os filhos e apenas conversando com eles pelo telefone quando ele precisa de alguma coisa, e não para saber como os filhos estão, dar apoio ou se mostrar presente.

A verdade é que Blaze é tão tonta quanto qualquer adolescente. Sim, olhando para trás, os erros da adolescência do leitor podem ser completamente diferente dos dela, mas estão lá. Quem nunca cometeu uma burrada fenomenal aos dezesseis/dezessete anos? O importante em Blaze é que ela aprende com seus erros, por mais raiva que eles façam o leitor passar e a personagem sofrer.



A preocupação com o sexo – o arrependimento da primeira vez

 Apesar de tonta como toda a adolescente, Blaze demonstra uma preocupação exagerada com sexo. Ela se auto-intitula a “Garota Super Virgem” e parece ansiosa para deixar o estigma da virgindade para trás. Ela não tem grandes fantasias românticas para sua primeira vez, tratando o assunto mais como um quesito social no qual ela está atrasada, como alguém que atingiu a idade legal para dirigir, mas ainda não tirou a carteira de motorista, e vê todos os amigos guiando carros pelas ruas enquanto precisa andar a pé.

Independente de como a perda da virgindade seja encarada, Blaze é como muitas adolescentes: tem a primeira relação sexual por impulso e posteriormente se arrepende. Blaze é uma personagem que sintetiza os arrependimentos mais comuns das adolescentes em relação à primeira relação sexual:

- O parceiro: Mark finge estar interessado nela, mas não tem o mínimo de respeito pela garota – e até mesmo de amor-próprio – para se dar ao trabalho de usar um preservativo. Em seguida, ele simplesmente a ignora, deixando-a de coração partido e provando que somente queria usá-la. Em resumo, um verdadeiro babaca;

- O local: Blaze tem sua primeira vez com Mark no banco de trás de sua minivan, estacionada ao lado de um campo de milho. É comum meninas se arrependerem por “locais improvisados”.

- O momento: Blaze decide perder sua virgindade em um momento de pura empolgação hormonal, já que os beijos do rapaz são incríveis, e a sessão de amassos é obviamente excitante.  Além do que, há a pressão social para que ela deixe de ser uma garota “virgem e sem-graça”. Ter uma relação sexual inspirada por pura excitação e hormônios é algo a que qualquer ser humano está sujeito, mas que também inspira muito arrependimento.

- A falta de preservativo: com a empolgação hormonal falando mais alto, Mark não usa preservativo e Blaze não encontra força de vontade dentro de si para questioná-lo.

A verdade é que esses arrependimentos são em grande parte motivados pela visão que se tem da sexualidade feminina. É recente, em termos históricos, a liberdade sexual da mulher, em que o fato de uma mulher não se manter virgem até o altar não é mais motivo de revolta (em grande parte do mundo ocidental, pelo menos). Ainda assim, a perda da virgindade feminina ainda é observada sob uma ótica de quase misticismo. O estigma de que “a primeira vez” deve ser especial, com alguém que se ama, ou perfeitamente romântica ainda assombra a muitas garotas. E assombra porque é muito difícil de se realizar.

Para não serem assombradas pelo arrependimento de não terem esperado um garoto próximo a um príncipe encantado em uma cama com lençóis de seda e pétalas de rosas para perderem sua virgindade, as garotas precisam ser incentivadas (mais do que ensinadas) a somente fazerem sexo quando estiverem prontas e seguras de si, sempre com preservativo, e que hormônios são difíceis de resistir, mas que um pouco de força de vontade para parar e refletir se os dois primeiros quesitos estão sendo seguidos antes de continuar é necessária. E por último, e mais importante, é preciso que as mulheres parem de julgarem umas às outras – e a si mesmas – vadias por decidirem fazer sexo pela primeira vez.

Bullyng ao vivo e virtual

Para tentar “acelerar” a relação entre Blaze e Mark, a amiga de Blaze, Amanda, consegue tirar uma foto da garota de sutiã e enviá-la para o celular do garoto. Blaze, a princípio, se irrita com a atitude da amiga, mas logo a perdoa ao ver a atenção que Mark dá à foto. Quando Mark vira as costas para Blaze e ela vinga seu coração partido, porém, o garoto divulga a foto seminua dela na internet. O efeito de tal divulgação é o mesmo que infelizmente temos visto em quantidade na vida real recentemente: a garota é xingada por conhecidos, desconhecidos e anônimos de “vadia” e outras coisas do mesmo calão. O inferno de Blaze se completa quando ela passa a ser xingada nos corredores da escola, diariamente, além de ouvir propostas indecentes de praticamente todos os rapazes ao seu redor.

O que acontece com Blaze é revoltante, principalmente ao se ver que a escola não toma nenhuma providencia séria contra os geradores e os perpetuadores do bullyng, e que a própria Blaze desiste de processar Mark. A decisão de não mostrar conseqüências aos agressores, apenas à agredida, além do sentimento de impotência da última, é uma abordagem interessante por parte da autora. É o modo de Crompton demonstrar o mundo cruel em que vivemos, deixando o leitor com um gosto amargo de injustiça ao ler o livro, e não escondendo o fato de que crimes como esse nem sempre recebem a punição que deveriam. A história de Blaze serve como denúncia ao que acontece com muitas garotas, e que sirva de exemplo para que as medidas corretivas (e, principalmente, preventivas) à esse tipo de atitudes, inexistentes no livro, sejam aplicadas na vida real.

Crescer é sofrer, e vice-versa

A história de Blaze é a história de uma adolescente tendo suas ilusões quebradas pela primeira vez, sofrendo – e aprendendo – com isso. Seja a ilusão de que Mark gosta genuinamente dela, seja a ilusão de que seu pai é um cara legal, todas elas se partem em seu devido tempo. Ela aprende a perceber quem realmente está do seu lado, como seu irmão Josh, estranhamente maduro para seus treze anos, e quem não está, como a amiga Amanda, mais interessada em se dar bem do que em ser uma verdadeira amiga.

O tom geral do livro é leve e engraçado, apesar dos momentos tristes e da temática do bullyng. Alguns personagens secundários poderiam ser melhor aproveitados, como a avó, que só serve para dar um conselho aleatório: “encontre a sua voz, Blaze”, e depois perder a importância, se tornando quase irrelevante. Em geral, o livro entretém e transmite a mensagem a que se propõem. Apesar das atitudes da personagem principal serem muitas vezes difíceis de aceitar do ponto de vista de um leitor mais velho, a obra é interessante para provocar debates entre o público a que se destina, abordando temas atuais e complexos.