Texto com spoilers.
Uma série só se mantém no ar durante
nove anos se consegue cativar o público. Assim como Friends, que durou dez anos, HIMYM formou uma legião de fãs fiéis
que se sentia parte do grupo de amigos de Ted Mosby, que o apoiavam em sua
busca pelo amor na encantadora – e por vezes desafiadora - cidade de Nova
Iorque.
Em toda a obra que envolve
personagens, seja literatura, cinema ou televisão, é fundamental que esses
personagens evoluam e aprendam consigo e com os outros ao seu redor. E em nove
anos de seriado, após muitas idas e vindas, as lições acumuladas são inúmeras. O
erro do desfecho de HIMYM foi ignorar completamente as lições e transformações
de nove anos em prol de um final planejado na primeira temporada.
Deve-se dar aos criadores da
série o devido crédito por tamanho comprometimento com uma idéia, mas é preciso
um tipo especial tolice para não perceber o ponto em que uma idéia deixou de
ser válida e não pode mais ser retomada. Em HIMYM, passamos nove temporadas
aprendendo o que atrai e o que afasta Ted e Robin como par romântico. Juntamente
com Ted, percebemos como os dois não funcionam como casal. Juntamente com Ted,
aprendemos a superar essa decepção e a seguir em frente. E com o incentivo dos
roteiristas, conhecemos e nos afeiçoamos por outro casal: Robin e Barney. Desmoronar
toda essa construção de anos em um especial de 40 min é preguiçoso e
desrespeitoso para com os personagens e público.
Desde que Victoria reapareceu, no
final da sétima temporada, a sensação de que a série vem sendo estendida à
custa de muita enrolação desnecessária somente cresceu. E quando Barney e Robin
decidiram se casar, um leve ar de renovação tomou conta, reanimando a série,
que há tempo já vinha dependendo muito da química entre Neil Patrick Harris e
Cobie Smulders para seguir no ar. Investir tanto no relacionamento dos dois para
depois destruí-lo no final foi a forma mais cruel de dizer aos personagens e ao
público que ambos vinham sendo usados (no pior sentido da palavra) simplesmente
para manter a audiência do canal, e que nem o destino dos personagens, nem o tempo
do público, tem real importância.
Ao final, todos os personagens
foram tratados de forma injusta pela resolução da série, especialmente Barney e
Robin. Após uma temporada modorrenta, de poucas risadas, acompanhando um final
de semana eterno com episódios cujo único propósito era gastar tempo (vide
episódio 21 “Gary Blauman”), o último episódio ficou simplesmente atolado de
enredo, que teve de ser jogado às pressas e de forma preguiçosa sobre o
espectador.
A Mãe, finalmente apresentada no
início da temporada, se mostrou uma personagem encantadora desde o início, mas
poucos motivos nos foram dados para sustentar o amor de Ted por ela além de ela
ser um Ted de saias, tão igual que chega a cansar. No último episódio temos que
nos contentar com Ted dizendo que a amou muito. Simplesmente porque sim.
O divórcio de Barney e Robin nos
é jogado e, sem que tenhamos tempo de processar o baque direito, Barney regride
aos tempos de mulherengo e pá! vira pai.
(Mais sobre isso a seguir.) As vidas de Lily e Marshall também passam em um
turbilhão, Robin se afasta do grupo e a Mãe morre. E assim sem mais nem menos,
sem que todas as informações sejam devidamente processadas e assimiladas, Ted
volta a perseguir Robin, levando-lhe novamente a trompa azul.
O pior de tudo isso é que é
possível enxergar todo o enredo do episódio final como uma temporada. Poderia
ser uma temporada emocionante, mostrando a separação de Barney e Robin, Ted se
apaixonando gradativamente pela Mãe, Lily e Marshall sendo pais de três filhos,
a Mãe adoecendo e Robin tendo bons motivos para ficar com Ted. É claro, a
audiência provavelmente cairia para a metade no momento em que Barney e Robin
se separassem, mas pelo menos seria uma temporada muito menos tediosa do que aturar
aquele casamento interminável por 24 episódios.
A idéia de que a série faz um “círculo
completo” ao retomar a cena da trompa azul é até fofa, mas não condiz com o
rumo que a história vinha tomando nos últimos três anos, pelo menos. A lição
que fica do episódio final de HIMYM é que não é porque se tem uma cena filmada
e guardada há nove anos que se tem a obrigação de aproveitá-la colocando-a no
ar.
Os personagens e seus finais
Barney
Investir no relacionamento entre
Barney e Robin, especialmente durante as duas últimas temporadas, para em
seguida destruí-lo em exatamente 15:25 minutos de episódio foi no mínimo cruel.
Em defesa da proposta do show de mostrar a realidade da vida, em que
relacionamentos não dão certo e divórcios acontecem, a escolha de separá-los
pode até ser compreensível, apesar de toda a preparação e antecipação em torno
dessa união (passamos uma temporada inteira no final de semana do casamento)
contribuir para o gosto amargo deixado pela separação.
A separação de Barney e Robin é
triste, mas perdoável. O que acontece com Barney em seguida, não é. Após nove
anos assistindo-o evoluir de mulherengo que foge de relacionamentos estáveis a
um homem que é capaz de abraçar a idéia de amar uma só mulher para o resto da
vida, é simplesmente inconcebível vê-lo voltar aos velhos hábitos de cantar
mulheres com artimanhas toscas. Ele se torna pai de uma menina e com isso vê na
filha a única mulher que pode amar de verdade e incondicionalmente, finalmente
modificando sua atitude em relação às mulheres. Isso é simplesmente um tiro no
pé da própria série, tendo em vista que o aprendizado de Barney em relação ao
amor foi longo e complexo, começando com seu primeiro namoro com Robin,
passando por Nora e Quinn, para voltar a Robin. Jogar todos esses anos de
desenvolvimento de personagem fora em quarenta minutos é uma falta de respeito
com o personagem, com o ator e com o público.
Além disso, temos o detalhe de
que a coisa que faz com que a vida dele seja completa (a paternidade) é
justamente o que Robin não pode lhe dar e o que ele havia dito que não esperava
dela.
Robin
O desenvolvimento de Robin como
personagem também passa por seu amadurecimento em relação a relacionamentos,
sejam eles amorosos ou de amizade. Com o passar dos anos, ela se abre cada vez
mais aos amigos, e eles se tornam uma parte muito importante da vida dela. No
episódio em que ela descobre que não pode ter filhos, inclusive, Ted diz “a
partir daquele momento, sua tia Robin nunca mais esteve sozinha.” Sendo assim,
não faz sentido algum que ela tenha se afastado dos amigos da forma como é
mostrado.
Com certeza é difícil para alguém
continuar convivendo com o ex-marido e com, nas palavras da própria “o homem
com quem ela provavelmente deveria ter ficado e a linda mãe dos filhos dele”,
isso é fácil de entender. O que não é fácil de entender é como ela não manteve
contato pelo menos com Lily, sua melhor amiga.
Mas não, Robin, como mulher que
se dedica primordialmente à carreira e não pode ter filhos, acaba como uma
solitária, que só conta com a companhia dos cães.
Ted
Ted passou anos no “gancho” de
Robin, como o próprio jargão da série define. Ele “a deixa ir” para que ela se
case com outro cara. Ted então encontra outra moça, se apaixona, tem filhos com
ela, casa com ela e a vê morrer, e então ah,
crianças, sabe o que é, é que eu sempre fui apaixonado pela sua tia Robin. E
o que foi a Mãe nessa história? Apenas o meio com o qual ele pode ter os filhos
que Robin não poderia lhe dar? Sim, seria muito triste se Ted ficasse o resto
da vida de luto pela falecida mulher sem jamais seguir em frente, mas voltar à
Robin não é seguir em frente, é andar para trás. Muito para trás. É voltar a uma obsessão quase doentia por uma
mulher que nunca correspondeu ao seu amor da mesma forma.
E mais, uma das crianças comenta:
“vocês dois são muito óbvios sempre que ela vem jantar aqui.” Então a Robin, a
isolada e solitária Robin, se reaproximou da turma? Ou só do Ted?
Sim, Robin e Ted tinham um acordo
de ficarem juntos se, após os quarenta anos, ambos estivessem solteiros. Entre
esse acordo e o final da série, contudo, muita coisa aconteceu (cinco temporadas,
para ser mais exata), e juntá-los novamente ao final de tudo é totalmente
inadequado.
Lily
Lily é uma personagem de instinto
materno muito forte, servindo muitas vezes de mãe para seus próprios amigos.
Contudo, ela também quer ter uma carreira de sucesso, e ocasionalmente se vê
assustada com as responsabilidades e a pressão da maternidade.
Finalmente atingindo o ponto alto
de sua carreira ao trabalhar para o Capitão, Lily termina a série com três
filhos e sem o menor indício de que sua carreira continua bem (ou que sequer
existe). Também não sabemos como ela encara a maternidade após três filhos,
mesmo quando a pressão de um filho só já a fazia querer sumir de vez em quando.
O final de Lily não trouxe o encerramento que ela merecia.
Marshall
A evolução de Marshall sempre foi
mais focada no âmbito profissional. Ele começou como um inocente estudante que
sonhava em salvar o meio ambiente, passou pela fase de advogado formado
descobrindo a realidade cruel do mundo corporativo e chegou a juiz. A evolução
de seu relacionamento com Lily e os obstáculos que ambos enfrentaram juntos foi
um dos temas mais bem abordados da série. Ao final, Marshall conquistou tudo o
que queria: um casamento feliz, uma casa cheia de filhos, um emprego como juiz.
O sortudo não foi afetado pela tragédia em que consiste o episódio final.